terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O dia em que a cólera não chegou

Em 1999, eu estava no auge de minha meninice. Tinha 10 anos e estava na quarta série, período em que somos todos os reis do pátio da escola por sermos mais velhos do que o pessoal das outras turmas.
Morava em Antonina, uma pequena cidade no litoral do Paraná que vivia (e ainda vive) uma relação de dependência com Paranaguá. É uma cidade tranquila em que o grande acontecimento é a filha de Fulano estar grávida. Por isso – pela calmaria, não a gravidez indesejada – é que se tornou costume entre os moradores evocar os tempos de ouro da cidade, em que o porto funcionava e o município tinha alguma relevância.
Aos meus 10 anos, vi seus últimos suspiros. Lembro que eu atravessava a rua correndo entre um caminhão e outro ou tampava os ouvidos quando o trem passava. Todos em direção ao velho porto.
Foi nessa época que ela chegou. A cólera. Escondida nos navios que vinham do exterior, ela desembarcou em Paranaguá sem que ninguém percebesse. Manteve-se no anonimato até sua grande estreia: a morte de um holandês.
A notícia espalhou-se mais rápido do que a doença e Paranaguá foi tomada pelo pânico. As primeiras a se desesperarem foram as putas, sempre muito chegadas do dinheiro holandês. Até se descobrir quem fora o gringo morto pela moléstia, houve choro e desespero em todas as zonas perto do porto.
Como já havia dito, Antonina sempre foi muito dependente de Paranaguá. Tanto que até mesmo o surto de cólera foi compartilhado, por mais que nenhum caso tivesse sido relatado. Era um clima de tensão aonde quer que você fosse. Até mesmo os peixes passaram a ser amaldiçoados, já que diziam que toda a merda dos navios era jogada no mar. Foi a sentença de morte para muitos restaurantes da cidade.
A cidade logo desenvolveu um sentimento segregacionista. Primeiro os caminhoneiros, que foram transformados em ratos que traziam a Peste Negra para dentro dos limites da cidade. Depois foram os estivadores que passaram a ser evitados e vistos como comissários do próprio Anjo da Morte.
Como a cidade era pequena, não demorou muito para que os boatos de que “o irmão de Beltrana” foi pego pela cólera. A desconfiança tomou conta e, como o principal sintoma da doença era a diarreia, qualquer cagadinha a mais era sinônimo de exclusão social.
Eu estudava na maior escola pública da cidade e que abrigava mais da metade das crianças. Moleques ignorantes cuja maioria dos pais trabalhava no porto, seja de Antonina ou Paranaguá. E como aos 10 anos ninguém sabia muita coisa além de que terça era dia de Nescau na cantina, algumas medidas extremas foram tomadas.
A primeira ação foi proibir o empréstimo de qualquer material ao colega. Logo depois veio o cancelamento de qualquer atividade fora de sala, como brincar no pátio ou aulas de recreação. Como a aula de Educação Física ainda não tinha sido inventada, as professoras inventavam um dia de recreação, que sempre coincidia com os dias em que elas não queriam trabalhar.
Tente chegar para quase 50 crianças de dez anos e dizer que elas não podem mais brincar lá fora. Houve reclamação, gritos, bagunça e os alunos que faziam a 4ª série pela quinta vez ameaçavam matar a professora. Para contornar a situação – e continuar vadiando – as tias desenvolveram um sistema de jogos dentro de sala. Grupos divididos fazendo atividades diferentes. Foi nesta ocasião que desacreditei no ensino público, quando uma professora tentava me convencer, aos berros, de que a Alemanha ficava na Ásia.
Porém, o maior problema para os diretores da escola era encontrar uma forma de conscientizar aqueles pequenos demoninhos sobre o real perigo da cólera. A solução encontrada foi exibir uma série de vídeos educativos. E nenhum deles era exibido nas dependências da instituição. Era a saída perfeita para “dar aula” sem correr o risco de morrer.
Lembro-me de ir com um pequeno grupo na casa de uma veterinária para assistir a tal filme. Era incrivelmente chato, mas impactante. Até hoje me lembro do “TAM TAM TAM TAM” dramático dos primeiros acordes da 5º Sinfonia de Beethoven que iniciam o vídeo. Em seguida imagens de uma folha de alface, que recebia um zoom até mostrar a figura do demônio daquele fim de milênio: o vibrião colérico.
E por alguns tempo a figura da vírgula assassina assombrou nossas vidas. Todos os dias surgiam histórias de que alguém fora internado, vítima da cólera. Crescia também o número de pessoas que morriam, mas eram facilmente encontradas na praça central, conversando e comendo amendoim. Meu pai foi morto três vezes pela cólera em duas semanas.
A situação começava a deixar as pessoas paranóicas. Não duvido de que alguém tenha passado sangue de bezerro sobre a porta para impedir a entrada da doença. Simpatias foram criadas, as preces e orações sempre pediam pela vida de um suposto enfermo ou para evitar que o maldita alcance algum conhecido. Porém, por maior que fosse a fé da pessoa, poucos arriscavam uma ida à igreja. Apesar de não ser transmissível pelo ar, qualquer possibilidade de contato pessoal dava margens para uma possível contaminação.
Mas bastou que passassem dois meses e ninguém mais se lembrava do desespero de outrora e percebeu-se que a cólera nunca havia chegado a Antonina. Nenhuma caso foi realmente confirmado e as enfermeiras, que sempre traziam notícias de falta de leitos por causa da cólera, descobriram que ninguém nunca foi internado por causa da doença em Antonina.
Logo as putas voltaram a atender os holandeses com a mesma atenção de antes, a desconfiança sumiu, os caminhoneiros foram perdoados e você podia cagar em paz sem que te olhassem como doente. O pânico foi embora, mas voltou dez anos depois na forma do quilo de presunto.

sábado, 10 de outubro de 2009

Esaú e Jacó

Isaac e Rebeca tiveram dois filhos: Esaú e Jacó. O primeiro, mais sério e dedicado a seus afazeres, sempre fora o preferido do pai, enquanto o caçula sempre teve a atenção da mãe, apesar de sempre trazer descontentamentos para a casa.

Quando crianças, quando ainda frequentavam juntos a pequena escola da cidade, era o primogênito quem trazia sempre as melhores notas. Amava os livros e sempre recebia elogios de seus professores.

Jacó, por outro lado, não valorizava em nada os estudos e suas notas eram quase sempre abaixo da média. Quase analfabeto, se importava mais em brincar e montar coisas do que com aquilo que seus pais queriam que ele fizesse. Ainda assim, eram dele as histórias de filho perfeito que Rebeca contava para suas amigas.

Enquanto o defeito de Jacó era ser relapso e irresponsável, o temperamento explosivo de Esaú era o que sua mãe jogava em sua cara desde cedo. Como toda criança, os dois irmãos brigavam, muitas vezes por coisas bestas, e Rebeca sempre vinha ao auxílio de Jacó. "Maldito seja! Criatura ruim e egoísta! Há de pagar por tua ruindade!". Isaac, já de idade avançada, preferia assistir de longe, sem interferir. Das poucas vezes que tentou defender seu primogênito, sofreu com a língua ferina de sua esposa.

O tempo se passou e a situação continuou a mesma: Rebeca protegendo Jacó e acobertando seus defeitos, enquanto Esaú viva à margem em sua própria casa e, quando se entendeu por homem, despediu-se da casa de seus pais. Com a partida do filho mais velho, o caçula assumiu de vez a posição de filho amado que sua mãe tentava passar, e ambos envenenavam a imagem de Esaú para o velho Isacc. "Veja só, amado pai! Meu irmão vem à tua casa e não lhe dá a devida atenção!", "Sim, meu marido! Nosso filho mais moço tem razão! Veja como Jacó te ama e compare com a indiferença de Esaú! Ele não ama a ninguém além dele". E muitas vezes Isaac chorou, acreditando na palavra dos dois.

Apesar disso, Esaú ainda amava a seus pais e a seu irmão. Sempre os visitava e convidava-os a visitar sua morada, na capital da província. Como a vida na cidade grande fez com que se tornasse uma pessoa fechada, o fato de ter um temperamento explosivo fez com que sua mãe e irmão tivessem argumentos para envenenar a cabeça de Isaac.

Quando Jacó se casou com Raquel as coisas mudaram. Esaú passou a ver a verdadeira face do irmão mais jovem. A esposa fizera com que a máscara caísse e revelasse o quanto ele era ruim. Quando saiu da casa do patriarca, levou tudo o que havia dentro de casa e saiu sem se despedir do velho pai, que chorou sua falta por semanas. Esaú então se revoltou com o descaso do irmão e foi pedir satisfação para a mãe, que o recebeu os gritos: "Caim! Como ousa trair teu irmão? Cresceste, mas tua índole continua má".

O tempo passou e Jacó continuou com o descaso para seu pai e também para sua mãe, que passou a criticá-lo para Esaú, mas ainda assim o defendia quando estava por perto.

Certa vez, Esaú visitou seus pais e levara afazeres de seu trabalho para casa. Chegando lá, não encontrou suas ferramentas: Jacó havia dado de presente para o sogro. Esaú enfureceu-se e fora reaver o que era seu por direito. Apesar de ser conhecido pelo seu temperamento, controlou-se a respeitou a casa que não era sua. Apesar disso, não fora o suficiente para Jacó, que correu chorando (apesar de homem feito) para o colo de Rebeca. "Mãe, meu irmão é animal! Chegou à casa de meu sogro com pedras na mão e fogo na língua. Nunca fui tão envergonhado". Indignada pelo que supostamente fizera a seu amado filho, Rebeca insultou Esaú com todas as palavras ofensivas que conhecia. Expôs claramente sua preferência ao filho mais jovem e sua vergonha por ter gerado "uma criatura tão má e sem coração quanto este a quem chamava de primogênito". Esaú tentou dizer que não fora Jacó havia contado, mas Rebeca não confiava em suas palavras. Insultado pela desconfiança da mãe, Esaú partiu para nunca mais voltar àquela casa. Despediu-se de seu amado pai e partiu. Nada mais foi relatado sobre ele.

sábado, 23 de maio de 2009

História sem nome

Ele estava sentado na primeira poltrona do ônibus. Se ajeitava enquanto esperava o veículo partir. 
Ela corria em direção ao seu portão de embarque, atrasada. Tinha trabalhado até depois de seu horário e agora corria o risco de perder o ônibus. Ia visitar a irmã que estava para casar.
Ele olhava impaciente para o relógio e para o motorista que conversava na porta do ônibus. Odiava atrasos, então decidiu por olhar as pessoas na rodoviária para deixar o tempo passar.
Ela chegou sem ar e agradeceu a Deus por não deixar o ônibus ter saído. Procurou a passagem nos bolsos da calça, mas não os encontrou. Se desesperou.
Ele viu a moça chegar correndo e ficou de mau-humor. O atraso na saída do ônibus foi por causa dela. Se torceu na poltrona para ver seu rosto e não conseguiu.
Ela revirou a bolsa em seu braço e encontrou o ticket. Entregou-o ao motorista sorridente e entrou no veículo. Parou no meio das escadas para conferir qual era sua poltrona.
Ele se ajeitou em seu lugar e torceu para que o motorista decidisse enfim trabalhar. Foi então que a viu subir pelas escadas e parar, para conferir algo. Durou alguns segundos, mas o tempo parecia ter parado naquele instante.
Ela olhou pra trás e viu o motorista esperando-a entrar de vez. Sentiu-se envergonhada quando ele mostrou a placa de "Não pare nos degraus" e foi o mais rápido que pôde para o seu lugar, quase no fundo do ônibus sem perceber no homem que virava a cabeça para observá-la enquanto passava.
Ele continuou admirando-a. Acompanhou-a com os olhos quando passou ao seu lado e soltou um suspiro desanimado quando viu que ela não iria sentar ao seu lado.
Ela batia nas pessoas com sua mala à medida que avançava até sua poltrona. Depois de muitos olhares tortos, chegou. Sorriu ao ver que iria sentar na janela e que não teria ninguém ao seu lado. Poderia deitar e dormir até o fim da viagem.
Ele respirou fundo e tomou coragem. Apesar dos 1,60m, era corajoso. E cara de pau. Levantou-se e foi em direção ao fundo do ônibus, olhando as poltronas para descobrir onde ela estava sentada.
Ela tinha acabado de colocar suas bolsas no bagageiro e se ajeitava na poltrona, já com o fôlego recuperado. Viu alguém se aproximar e fez uma nota mental de nunca mais sentar perto do banheiro de novo.
Ele a encontrou quase na última poltrona. Respirou fundo novamente e sorriu ao ver que não tinha ninguém ao seu lado. Se aproximou e fingiu ser o dono da poltrona vazia.
Ela viu o homem sentar-se ao seu lado e pensou um "Ai, merda". Retribuiu o sorriso do estranho com outro, falso, e virou-se para a janela. O ônibus se movia lentamente em direção à saída da rodoviária.
Ele virou-se pra ela e tentou puxar assunto. "Antonina ou Morretes?".
Ela, sem desviar o olhar da janela, respondeu um "Antonina" seco.
Ele insistiu. "Mora lá?".
Ela não mudou o tom. "Não. Minha irmã vai casar".
Ele decidiu arriscar. "Que bom. Você e seu namorado vão ser os padrinhos, suponho".
Ela se irritou ao lembrar do assunto namorado. Tinha terminado com um rapaz três anos mais novo que ela. Namoravam há 2 anos e ele decidiu lhe trair com uma menina de 18. "Não. Terminei meu namoro há um mês, então minha irmã decidiu me poupar".
Ele não se aguentou e abriu um sorriso de orelha a orelha.
Ela queria que ele calasse a boca.
Ele ousou mais. "Você é muito bonita, sabia?"
Ela perdeu a paciência e se virou para o homem.
Ele a olhava, sorrindo.
Ela o encarava, irritada.
Ele ignorou a carranca da moça e se apresentou. "Durval".
Ela desistiu de dormir e se entregou à conversa. "Zenira".
Ele tinha 65 anos.
Ela 28.
Ele falava sobre sua vida de aposentado, que estava voltando para a sua cidade natal depois de anos trabalhando no Porto de Santos. Tinha muitas histórias, do tempo que foi lutar na guerra até quando se fingiu de louco para não trabalhar mais.
Ela se interessava mais e mais pelo que aquele homem falava.
Ele falava e ria alto.
Ela achava graça naquilo tudo.
Ele calou-se e ficou apenas olhando a moça.
Ela ficou vermelha.
Ele sorriu novamente. "Gostei de te conhecer".
Ela retribuiu o sorriso. Desta vez com sinceridade. "Eu também". 
Ele sorria como uma criança.
Ela esperava um beijo.
Ele não a beijou.
Ela se assustou ao ver que já estavam chegando e pediu licença porque iria descer já no próximo ponto.
Ele perguntou aonde ela ia ficar.
Ela respondeu onde a irmã morava e puxou a cordinha para dizer que queria descer.
Ele queria falar mais coisas, mas só conseguiu soltar um "Eu vou te procurar".
Ela riu e se despediu mandando um beijinho à distancia e correu até a saída do ônibus, batendo nas pessoas com a mala de novo.
Ele tinha se apaixonado por alguém que acabara de conhecer. Quando o ônibus parou de vez, desceu e foi até um hotel. Deitou-se na cama e ficou olhando o teto, sorrindo.
Ela chegou na casa da irmã, abraçou-a, deu os parabéns, disse que estava linda e contou a loucura que fora aquela viagem. "Um velho veio me cantando de Curitiba até aqui". A irmã riu e quis saber mais. Ela contou, ocultando o fato de que também tinha gostado dele, mas não podia esconder por muito tempo. "E você, gostou dele?", perguntou a irmã. Ela respondeu com um não sei. Apesar de ter gostado dele, a diferença de idade era absurda. Ele era mais velho que seus pais. Usou o ex como desculpa. "Um pouco. Não quero mais alguém novo que me deixe na merda no futuro ou que me largue depois. Quero um velho aposentado pra sustentar a mim e a meus filhos". Elas riram daquilo.
Ele tomou um banho, se ajeitou e decidiu ir atrás dela. Foi até o bairro que ela indicou e perguntava para as pessoas na rua onde a noiva morava. Depois de perguntar para três pessoas, encontrou. Parou na frente do portão e bateu palmas.
Ela ouviu o barulho de palmas no portão. A irmã mexia no armário e pediu para que ela visse quem era. Ela afastou as cortinas e olhou para o homem no portão.
Ele não percebeu a movimentação.
Ela se desesperou. "Meu Deus, é ele!" A irmã espiou pelo vão da cortina e riu. Discutiram o que deveria ser feito.
Ele aguardava ansioso. 
Ela se decidiu e saiu para atendê-lo.
Ele sorriu ao vê-la sair pela porta e vir em sua direção.
Ela se aproximou e beijou-o no rosto. "Pensei que estivesse brincando quando disse que ia me procurar".
Ele respondeu que não brincava com esse tipo de coisa e lhe entregou uma caixinha com um anel dourado dentro.
Ela ficou vermelha e disse que não poderia aceitar aquilo.
Ele foi direto. "Quero me casar com você".
Ela ficou sem ar. Sabia que ele era velho, mas ele não ia morrer amanhã para estar desesperado assim. Devia ser outra brincadeira dele. Não podia confiar em alguém que arremessava um latão de cima de um prédio para ser aposentado como louco.
Ele pediu uma resposta.
Ela não sabia o que dizer. Apesar de ter gostado dele, não o amava a ponto de aceitar esse pedido.
Ele esperou que ela dissesse algo.
Ela pensou naquilo que havia dito para a irmã, de querer alguém que lhe desse estabilidade. Alguém que lhe desse uma vida tranquila. "Você realmente me ama assim?"
Ele respondeu com outra pergunta. "Se não amasse, teria revirado a cidade atrás de você e teria te pedido em casamento como estou fazendo?"
Ela sentiu um frio na barriga. Pensou em simular um desmaio, mas achou aquilo um exagero. Decidiu ouvir sua razão. "Vamos dar um tempo. Nos conhecemos hoje. Aceitar esse pedido assim é loucura".
Ele não desanimou. Apesar de não ter saído como queria, já era algo. Convidou-a para sair.
Ela aceitou.
Ele esperou por mais um mês e refez o pedido.
Ela gostava dele, mas não o amava o suficiente para se casar. Mas a ideia de se casar com alguém que pudesse dar uma boa vida aos seus filhos ainda ecoava em sua cabeça. Decidiu aceitar.
Ele arrumou tudo para que as coisas ficassem prontas o mais rápido possível. Perguntou onde ela queria morar e ela respondeu que ali mesmo. Rodou a cidade e encontrou uma casa à venda. Comprou-a e chamou a moça para morar com ele.
Ela foi.
Ele era seu marido a partir de então.
Ela sua esposa.
Ele fez exatamente aquilo que ela imaginava. Nunca deixou nada faltar em casa e sempre lhe dava o melhor de tudo.
Ela não o amava de verdade, mas achava que logo esse sentimento nasceria e que seria feliz. Alguns anos se passaram e ela teve dois filhos com ele. Já o amor nunca nasceu.
Ele esqueceu como era amar.
Ela se acostumou com aquela vida.
Ele era feliz.
Ela também.
Eles não precisavam mais daquilo que chamam de amor. As pessoas criticavam o relacionamento deles, mas, apesar dos problemas, sempre viveram bem. Eles desenvolveram um sentimento só deles, um misto de carinho e respeito.
Eles aprenderam a se amar à sua maneira.

quarta-feira, 11 de março de 2009

40 dias sem Coca

Sou viciado em Coca-Cola. Isso não é mistério para ninguém. Viciado ao ponto de não conseguir beber outro refrigerante - não com o mesmo prazer.

Eu e mais dois amigos viciados decidimos então ficar 40 dias sem pôr uma gota sequer de Coca na boca. Nem Coca nem qualquer outro refrigerante.

É triste. É doloroso. É engraçado.
40 dias sem Coca.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Semiótica da Mendicância

Mendigos são chatos por natureza. E irritantes. O simples fato de pedirem de dinheiro e, às vezes, de maneira intimidante - alguns chegam a apelar para a agressividade - fazem com que eles se tornem verdadeiras pragas nas grandes cidades. E algumas pessoas parecem ter o dom de atrair esse tipo de gente, como eu. E é por isso que considero-os meus inimigos naturais e volta-e-meia brigo com algum. Como hoje.

Perdi a conta de quantas vezes já fui abordado por mendigos só neste ano. E sempre com uma história diferente. Alguns são mais benevolentes e me poupam de ouvir uma história fictícia do porquê eles estão ali mendigando. Simplesmente assumem o fato de serem vagabundos e que querem umas moedas pra beber ou fumar crack.

E aqui abro um parênteses. Se todos os mendigos fossem assim, de querer moedas pra comprar crack, eu daria sem reclamar, afinal dentro de umas duas semanas morreriam e seria um chato a menos pra me pedir dinheiro. Em um ano não teríamos mendigos e todos seríamos felizes, afinal todo mundo quer um mundo sem pobreza, certo?

Voltando ao assunto. O problema é que nem todos os pedintes assumem essa premissa de que realmente são vagabundos. Sempre há uma historinha pra mostrar que ele está ali pedindo porque não resta opção ou é só daquela vez, mesmo que você o encontre todo o dia, ele virá sempre com a mesma história. Era assim com um mendigo que morou por algumas semanas na minha rua. Segundo ele, o dono do restaurante preferia jogar comida fora do que lhe dar um pouco daquilo que iria pro lixo. Então pedia dinheiro pra ir comprar dignamente. Mesmo com o restaurante fechado.

Como existem diversos métodos que os mendigos usam para abordar alguém na hora da mendicância e eu sempre sou vítima de pedintes, acabei aprendendo a linguagem das ruas e passei compreender cada símbolo presente na hora de pedir esmola. É a Semiótica da Mendicância. Usarei minha última briga com um cara que veio me pedir dinheiro para explicar ponto a ponto do método.

Estava saindo da faculdade com a minha namorada, uma amiga nossa e eu, quando um mendigo nos aborda pedindo umas moedas. Todo mundo estava com pouco dinheiro e sem nenhuma vontade de dar dinheiro pros outros.

Antes de continuar a história, um pequeno flashback. No final de Dezembro minha sogra veio para Curitiba com os dois irmãozinhos da minha namorada, de 8 e 4 anos. Certo dia, enquanto passeávamos pelo centro da cidade, decidimos comprar um algodão doce pro mais novo quando fomos abordados por um mendigo, que pediu umas moedas e, ao dizermos que não tínhamos nada, começou a dizer que Deus estava vendo aquilo e que Ele um dia iria cobrar por isso.

Pois então, o mendigo apocalíptico daquela vez era o mesmo de hoje, e ele é o pior tipo de pedinte, o que intimida. Quando falamos que não tínhamos nada e continuamos a andar, ele passou a nos acompanhar e a falar mais alto, quase gritando. "Não me trata mal, não! To aqui pedindo ajuda!!!". Não são todos os pedintes que fazem isso, mas alguns apelam para a intimidação. Falar alto serve para colocar um pouco de medo na vítima. Fazer pensar que talvez ele esteja alterado e pode atacar. Ninguém tratou mal o cara, apenas dissemos que não tínhamos nada e continuamos a andar, mas ele tinha de continuar com aquilo.

Como ele começou a nos acompanhar, paramos. Nosso maior erro. Ele começou a contar sua história. Tinha acabado de sair da cadeia, segurava uns papéis que simulavam documentos, e queria que ajudássemos. Eis aí outro ponto: o histórico ameaçador. Se ele já esteve preso, quer dizer que pode ser perigoso. Você sente-se mais acuado e começa a temer tentando adivinhar o motivo da prisão. Assalto? Assassinato? Sequestro? Enfim, ele continua a contar e diz que um professor da faculdade, que trabalhava no 17º andar, era padrinho dele. Usando isto, ele tenta te passar uma imagem de confiança. Apesar de ele ter sido preso e poder ser perigoso, há alguém importante que confia nele. Mas é aí que geralmente está a falha da história, ou seja, é nessa parte da novela que eles soltam alguma informação equivocada. Neste caso, o andar. Segundo ele, o tal professor trabalharia no 17º andar de um prédio de apenas 11. Atentando isso, vê-se que a história é totalmente irreal e qualquer artifício sentimental utilizado anteriormente se desfaz e você não se sente culpado.

Novamente negamos as moedas e voltamos a caminhar. Ele se irrita, tentando intimidar novamente e então passa para as ameaças. "Vou começar a roubar também nessa porra!". Essa é praticamente a última tentativa. Com uma ameaça ele te faz ficar com mais medo e você acaba dando até mais do que poucas moedas para acalmá-lo. E assim você vai embora ouvindo xingamentos de um mendigo.

Mas você NUNCA deve iniciar um bate-boca com ele. Nunca, principalmente à noite e em locais sem muito movimento. Não deve ser como eu, que de mau humor, decidi argumentar com um "E por que você não vai pedir ajuda lá pro teu padrinho, então?" e tive de ouvir toda a fúria daquele vadio. "Ele tá na Alemanha, trabalhando, playboy filho da puta!", berrou. Novamente uma contradição. O tal professor não tava no 17º andar? Ele continuou a berrar e minha namorada começou a apertar minha mão, desesperada. Passei a ignorar o mendigo e suas ameaças de "Vou te dar uma facada, seu vacilão!" para não pôr em riscos as duas, apesar de ele não ter uma faca ou qualquer outra arma, afinal, se ele tivesse, me roubaria e não ficaria ali batendo boca com o ar.

domingo, 8 de março de 2009

I don't like you.

"Misantropia é a aversão ao ser humano e à natureza humana no geral. Também engloba uma posição de desconfiança e tendência para antipatizar com outras pessoas. Um misantropo é alguém que odeia a humanidade de uma forma generalizada."
Fonte: Wikipédia

Nunca fui muito chegado em conversas e nem tive muitos amigos e conviver com outras pessoas nunca foi o meu forte. Isso sempre foi o principal ponto de atrito com a minha família, que vivia reclamando da minha frieza com meus tios e demais parentes, tanto que um deles veio perguntar para minha mãe se eu não era autista.

Como já disse, não sou bom em conviver com outras pessoas, principalmente desconhecidos. Dizem que a primeira impressão é a que fica. Para mim, é a definitiva. Se à primeira vista eu não me simpatizar com alguém, dificilmente mudarei de idéia. O problema é que eu dificilmente encontro alguém que me desperte simpatia. Para se ter noção, na faculdade foram apenas duas pessoas e são as únicas com quem realmente convivo.

Apesar de eu nunca ter sido um exemplo de pessoa comunicativa, foi em Curitiba que a coisa desembestou. Semprem e perguntavam se eu não me sentia muito sozinho aqui, ou se a frieza do povo daqui me incomodava, e eu sempre respondia com um não. E não era mentira, afinal nada melhor para um misantropo do que morar em uma cidade em que ninguém liga a não ser para si próprio. Honrei tanto isso que no durante o cursinho não falei com ninguém durante um ano.

Ultimamente a misantropia está em um nível um tanto quanto elevado e tenho me irritado com deveras facilidade com as pessoas a ponto de, às vezes, preferir o isolamento. Dificilmente mantenho o bom-humor em um ambiente com mais de cinco pessoas, como na festa do primo da minha namorada, quando estava quase batendo numa criança de 6 anos que não tinha uma das pernas.

Quando vou pegar o elevador e vejo que alguém vai junto, prefiro diminuir o passo para não correr o risco de dividir o espaço com alguém por 20 segundos em um silêncio constrangedor, onde você vai ficar olhando pro nada e torcendo para que aquela porra pare logo. E ainda corro o risco de vir com alguém que invente de conversar, como o meu novo vizinho. E era por isso que, quando eu via que minha ex-vizinha estava saindo do apartamento para também ir à PUC, eu me enrolava dentro de casa até ela descer. Sem contar o tapete de "Welcome" voltado para dentro, como se o mundo estivesse me dando as boas vindas.

Como todo transtorno psicológico - afinal é isso que a misantropia é -, não é uma coisa legal, mas admito que no fundo eu gosto. Tem lá suas desvantagens, como a dificuldade para conversar, mas, no geral, acaba sendo bom, afinal não gosto de ninguém e com isso não me importo com eles. E em uma sociedade em que impera o individualismo e o egoísmo, a misantropia é a doença do futuro.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Meu vizinho reggaero

A maldição do "Marley e Eu" persiste e minha sina de ser perseguido pela galera de tribo de Jah continua. Agora tenho vizinho reggaero que insiste em ser meu "brow".

Começou quando cheguei no meu prédio e vi aquele monte de sacolas e malas na porta. Atrás disso tudo, saltando aos olhos de qualquer um, um quadro de Bob Marley. Na hora, comecei a rezar para que, ou estivesse saindo do prédio, ou morasse em qualquer andar que não fosse o 10º - do qual por sinal sou Rei.

Estava prendendo a minha bicicleta quando ouço a zeladora, como de costume, questionando o novo morador. Perguntou de onde era e ele responde, com aquela voz arrastada de quem vive um "sussebrow way of life", que era de São Paulo.

Me enrolei um pouco mais que o necessário para prender a bicicleta, afinal minha misantropia me impede de dividir o elevador com quem certamente vai puxar papo. Dado um certo tempo em que ele provavelmente já tinha desaparecido, saí de meu esconderijo e dei de cara com a porta do elevador aberta e o cara enchendo aquilo de sacola e o horrendo quadro do Bob Marley. Tentei chamar o outro elevador, mas como o outro estava ali, acabou me deixando na mão.

- Brow, entra aqui! Tem espaço ainda.

E eis que meus temores estavam certos: o cara começou a puxar papo.

- Cê mora aqui?
- Aham. - Eu olhava desesperado para o visor, que avançava os andares com uma veocidade incrivelmente aquém da normal.
- Sozinho?
- Aham.
- Faz o quê?
- Estudo.

Foi nessa parte da conversa que desisti de olhar para o visor, que me torturava com a demora e com a possibilidade de ele dividir o andar comigo, e decidi olhar para aquele que tentava desesperadamente conversar comigo. Dos males o menor, já que ele não usava dreads - ou seja lá como se chama aquela porra que os reggaeiros fazem na cabeça - e não se vestia como um hippie. Era apenas um playboyzinho com cara de drogado.

- Massa. O quê?
- Jornalismo.
- Ô! Onde?
- PUC.
- Massa! Também vou fazer lá. Engenharia de produção (ou qualquer merda assim)
- hmm - Ainda estávamos no 4º andar e o desespero de ele estar se dirigindo para o décimo crescendo a medida que avançávamos.
- Como cê vai pra lá?
- A pé.
- Ô, massa! To querendo ir também. Andar de ônibus nem rola. Que horas você sai?

Nessa hora o desespero atingiu nível crítico. Além de desrespeitar a principal regra de convívio social de Curitiba - a de JAMAIS puxar assunto no elevador, principalmente com desconhecidos - ele queria se "achegar" a mim e me fazer companhia na minha via crucis até a PUC. Olhei para o quadro encostado no fundo do elevador, e vi, atrás de um enorme nevoeiro, Bob Marley sorrindo sarcasticamente para mim, como se pensasse: "Me zoou aquela vez, agora senta!"

- Às 7, mas esse ano comprei uma bicicleta, vou sair um pouco mais tarde.

Graças a Deus, nesse exato instante, enquanto estávamos quase chegando ao quinto andar, o cara olha pro visor e, para o meu alívio, se desespera:

- Meu Deus, esqueci de apertar! - e aperta o botão do 7º andar - Então, cara, vou estar lá embaixo essa semana, daí a gente conversa e você me fala como ir pra lá.
- Ok. - e desesperadamente apertava o botão do 10º andar.

Meu prédio parece ser quase que uma Casa do Estudante da PUC, porque só vejo gente de lá e que sempre insistem em ir comigo. A última que se aventurou foi uma menina que fazia Enfermagem e morava no apartamento em frente ao meu. Na terceira vez em que me acompanhou, percebeu meu desinteresse nas histórias de como os pais dela eram controladores mesmo à distância quando se deu conta que eu apenas respondia com pequenos grunhidos (uhum, hmm) ou no máximo alguma coisa monossilábica. Desde então decidiu gastar R$ 1,90 para ir de ônibus e só voltei a vê-la quando estava indo embora do prédio.

Ir pra PUC é triste e não vai ser a companhia de algum aleatório que vai torná-la mais divertida, principalmente para alguém misantropo. Logo, espero que esse reggaero não venha tentar fazer meu caminho mais divertido, tampouco descubra em qual apartamento moro, apesar de não ser difícil, já que sou a única pessoa que usa o tapete de "Welcome" virado para dentro.